Vamos digitalizar nossa agência?

Com certeza você já ouviu a frase  “estamos digitalizando a agência”. Mas alguma vez você já parou para pensar o que precisa ser feito para realmente digitalizar uma agência com um DNA "offline"?

- Acima de tudo, você precisa parar de falar que está digitalizando a agência. Prove que está fazendo isso. Coloque trabalhos na rua, entregue algo na mesma qualidade dos trabalhos que você vê por aí em blogs de propaganda ou em Cannes e tanto admira. Ou seja: não é comprando um plano de mídia com formatos digitais e fazendo banners que você irá se digitalizar.

- Contrate quem entende de digital, mas não necessariamente apenas pessoais digitais. Não adianta criar um departamento de internet – você só jogou pra dentro de casa o que teria feito contratando um fornecedor externo, e agora com custos fixos. Ou seja: contrate criativos, planejadores, mídias, atendimentos que tenham experiência de online mas capacidade de fazer tudo e mescle com quem não possui experiência digital mas tem vontade de aprender.

- Pare de criar pensando apenas em execuções. Isso é uma prática muito comum das agências tradicionais – ao invés de focar na criação do conceito, da idéia, a coisa sempre cai na execução de um filme de 30” e um anúncio página dupla. Daí o que acontece? Tudo que será criado depois será um desdobramento de uma execução, e não de uma idéia. Quando o foco é um conceito, fica mais fácil (e natural) pensar em como levar a campanha para outros meios.

- Pense integrado. Se você vai criar algo bacana que envolve 4, 5, 10 pontos de contato com o consumidor, por que não comunicar algo que faça sentido entre eles? Não é porque você colocou um endereço web no final do seu filme de 30” que eles estão interligados. Pense em como eles funcionam juntos, qual a função de cada um. Alguns meios podem fazer mais do que simplesmente dar exposição para a marca.

- Crie histórias. A internet tem um poder muito grande de ser usada como uma plataforma, e não apenas para fazer hotsites que entram e saem do ar toda semana. E para isso, sua comunicação (e suas campanhas) precisam fazer sentido, possuir uma sequência lógica. Não é difícil, vai - todo mundo sabe contar uma história. Então conte a da sua marca para o seu consumidor. Aliás, reflita isso na hora que for apresentar para o seu cliente uma campanha: ao invés de jogar execuções impressas na mesa para ele escolher, que tal conduzí-lo através de uma jornada? (sim, faça ele se sentir em um cinema, brinque de Hollywood)

- Não chame a "galera de digital" no final do processo de criação, chame no começo. De novo: se a estratégia digital não veio junto com o resto, de que adianta se digitalizar? Uma campanha pode mudar inteiramente por causa de uma idéia ou aplicação na web, em mobile. Pense nas últimas coisas bacanas que você viu em Cannes (as realmente bacanas e aclamadas, pára de pensar no impresso supercool que você viu mas o consumidor não entendeu). Agora tira do projeto o PR, o digital, a repercussão na web. O que sobrou? Praticamente nada. Então por que você acha que vai criar algo incrível fazendo diferente?

- Tecnologia e mídia precisam estar na mesma mesa. Não adianta pensar em algo “muito louco” se depois ninguém viabiliza. Deixemos os egos de lado e vamos criar juntos. Vai ser melhor pra todos. Tenha um cara de tecnologia na sua equipe para dizer “dá; não dá”- nem que isso signifique contratar uma máquina que só existe na Rússia para viabilizar as idéias. Você pode saber muito de comunicação, mas no processo digital tem gente que sabe tanto quanto você de áreas muito importantes.

E por fim, pare de achar que isso é um processo longo. Não é. No máximo, algo de médio prazo. É simples: as pessoas mudam porque querem, ou porque são forçadas. Se não é brusco, não vão mudar. Em 6 meses você consegue mudar a cultura de um lugar se todos no comando quiserem, mas você pode levar anos para mudar o jeito de uma pessoa. Mas essa mudança é um exercício diário, e não um discurso mensal. Cada vez que você abre uma exceção no processo, regride meses na mudança. Ou seja: mude agora para aproveitar o quanto antes.

Que tal pararmos com o papinho e realmente mudarmos?

Butterflies and Hurricanes

Não adianta.
Todo emprego novo é a mesma coisa: insegurança, frio na barriga, noite da primeira transa. Parece que volto a ser estagiário, que não sei fazer nada, que nunca fiz isso na vida - apesar de já ter feito muitas vezes pra muita gente grande. É só juntar tudo que eu sempre fiz, dar os insights, pegar os dados, moleza. Moleza? O outline do ppt forma uma figura demoníaca ou o rosto do Michael Jackson engolindo uma criancinha. Juro. Quando parei de escrever, ouvi sussurros negando o que eu escrevia. Só uma coisa muda a cada novo ciclo: a cabeça. Se não sei, não sei e aprendo. Se sei, mostro meu ponto de vista pronto. E tenho certeza que uma hora essa sensação estranha na barriga passa e descubro que eram apenas borboletas batendo asas para sair.

De nada

Engraçado como sua percepção sobre uma pessoa pode mudar por pequenos detalhes. No meu caso, uma das coisas que mais me importo é o "obrigado". Não aquele obrigado dito por obrigação, mas aquele que realmente deixa claro que a pessoa está te agradecendo por você ter ajudado, se esforçado, ou até se prejudicado em prol dela. Talvez o motivo da importância seja o fato de eu nunca cobrar nada em troca, e tentar não esperar nada de ninguém - quando recebo um obrigado, fica clara a sensibilidade da pessoa em entender uma tentativa de relação mais próxima ou mais querida. Fico muito feliz em poder dizer "de nada" em voz alta, embora sempre escreva isso na sombra da minha imaginação.

Novas profissões, antigos postos

Dez anos atrás, ninguém falava sobre propaganda envolvendo celulares ou gadgets móveis, alguns arriscavam notas sobre os moldes da internet e os espertalhões vomitavam o que seria o futuro daquele mercado - não falo do mundo da propaganda, pois este é a ponta do iceberg, mas sim do mercado de consumo como um todo. Eu não trabalhava naquela época, mas já pensava no que iria fazer - curiosamente, queria terminar logo meu curso técnico de Biotecnologia e me ver livre de ácidos ribonucleicos e jalecos brancos para poder pensar com mais calma nessa coisa de internet que meu pai havia me apresentado. Sorte a minha poder mexer com computadores e afins desde os 14 anos, azar do meu pai só poder usar o computador de casa para estudar mais sobre análise de sistemas quando eu estava na rua. Mas voltando aos 17, lá estava eu, maravilhado com o que via e com as mil besteiras disponíveis nos mais diversos endereços www.

Daí pensei, quero ser publicitário, quero trabalhar com essas coisas novas, e assim começou minha peregrinação. Parecia que pouca gente no Brasil sabia do assunto, e os que sabiam, estavam muito distantes de mim. Pensei: nada melhor do que a faculdade para resolver isso, e lá fui eu iniciar o curso de publicidade e propaganda na Universidade Federal do Rio de Janeiro... Como sempre fui de mexer em programas gráficos e afins no computador de casa, consegui um estágio ainda no terceiro período, como webdesigner, numa agência focada em internet que havia sido relativamente grande antes da bolha. Lá, descobri a minha falta de aptidão para mexer com código ou atalhos e minha maior afinidade com pessoas e idéias, e por ali mesmo já mudei de cargo, trabalhando como uma espécie de atendimento. É difícil dizer "era atendimento", primeiro porque atendimento todos nós somos: à partir do momento que você já fez uma apresentação para um cliente (ou grupo de pessoas) defendendo uma idéia, você atendeu àquele projeto. Ou seja: encaremos os fatos, atendimento não existe... Executivo de contas (ou qualquer nome parecido)? Pode ser, mas era muita presunção para um adolescente considerar-se apto a um cargo, quanto mais algo tão pomposo como este. O trabalho consistia em ter idéias para os clientes, discutí-las como o time, recolher briefings, prestar contas, coordenar cronogramas. Pensando bem, e me fazendo do direito de não ter mais 17 anos... É, era um mini-executivo de contas - o mais correto seria me considerar um estagiário ou assistente, mas como muitos sabem, é prática comum do mercado colocar a molecada em funções e posições acima do que deveriam ter / estar, atrapalhando bastante cabeça e carreira.

Essa foi a época em que comecei a questionar muito o mercado e o que eu estava fazendo ali. Vamos lá: eu queria participar da criação, no planejamento, na definição dos veículos onde iriam colocaríamos as campanhas e ter contato com o cliente. Você pensa: cara, você quer fazer tudo isso, de uma vez? Não sejamos bobos, todos sabemos que é importante termos uma ou outra especialidade, mas daí a não podermos circular livremente por outras áreas, agregando mais idéias, criando projetos mais consistentes... Não fazia sentido. Sempre funcionou pros Caça-Fantasmas, pras bandas de rock e pros jogadores de futebol, dentre vários outros exemplos: todos se juntam, discutem o que vão fazer e depois cada um vai cuidar da sua parte. E durante todo o tempo conversam, opinam, dão sugestões no trabalho dos outros. Tudo em prol de um trabalho de equipe melhor. Depois de um período trabalhdando com análise de produto (nada mais do que planejamento com outro nome) na globo.com e como gerente de contas em outra agência do Rio de Janeiro, decidi que precisava procurar o que eu realmente gostava. Foi quando apareceu uma proposta bem próxima do que eu pensava, em São Paulo.

A idéia era ótima: unificar o trabalho da criação, da mídia, do planejamento, tudo embaixo de uma mesma "diretoria". Bingo, pensei eu. E realmente funciona muito bem - apesar da estrutura pequena que tínhamos, claramente você percebe o trabalho fluindo melhor, mais embasado, com resultados melhores. Claro que as coisas poderiam ser melhores, como sempre, mas não dá pra reclamar da época. E o trabalho ficou tão bacana que grandes clientes se interessaram, surpreendendo até a nós mesmos a cada concorrência que ganhávamos de gente bem grandinha. Foram quase 3 anos catequisando novas contratações, aprendendo muito com os próprios erros e olhando pro mercado em busca de modelos parecidos.

Foi essa busca por modelos que suportassem essa idéia que me fez transformar uma viagem de puro lazer em pesquisa de mercado: passando pela Europa, conheci alguns modelos de agências por lá e vi que não estava louco: planejadores como diretores de criação; mídia sentada do lado do redator; diretor de arte fazendo apresentação no cliente. Várias agências com projetos arquitetônicos defendendo o espaço comum, o trabalho comum e comunitário. Sonho de qualquer pessoa que preze pelo melhor do projeto para todos. Infectado pelo vírus dos modelos novos de trabalho (lembre-se, não tão novo assim, os Caça-Fantasmas faziam isso há anos), voltei para o Brasil.

Considerando o normal aquilo que todos fazem, caso você vá procurar emprego hoje, você precisa saber onde se encaixar: você é diretor de arte? redator? planejamento? mídia? gerente de contas? tráfego? Mas e se você não se encaixa em nenhuma dessas - ou melhor, se você se encaixa em mais de um lugar, no mesmo momento? Se a tua peça do quebra-cabeça serve para dois lugares? Isso é um defeito? Infelizmente, muita gente no mercado acaba encarando assim, esvaziando seus próprios discursos de modernidade e trabalho integrado. Não conseguem contratar pessoas sem que elas tenham os mesmos cargos de dez ou cinco anos atrás, quando hoje falamos de comunicação integrada, mídia social, mobilidade, ARGs, advergames, buzz marketing e muitos outros nomes que são inventados ou reinventados todos os dias. Parece que todos admiram o que as agências e pessoas inovadoras fazem, mas muitas vezes não tem a coragem de tomar iniciativa para mudar nosso próprio negócio ou equipe.

Sejamos francos: quanto mais o pessoal de criação souber de mídia, mais eficiente poderá ser a adequação das peças à campanha; quanto mais a galera de mídia se integrar com os executivos da conta, melhor será a segmentação feita e a defesa do trabalho para o cliente - e assim vai, são comentários quase óbvios e as possibilidades infinitas. Não é uma questão de arriscar, pois quem arriscou fez isso há 3, 4 anos. É questão de encarar uma realidade que pede um mercado mais ágil, mais dinâmico, mais integrado e inteligente. E com esse pensamento e experiências, continuo por aqui fazendo meu trabalho de planejador e criativo, mas sem saber exatamente onde me encaixar, mas sabendo como fazer o meu trabalho sempre posso.

Bruno Alves, sem cargo definido.

lembranças de uma memória que não existe

londres

Sempre quis morar fora, mas o lugar ideal já mudou algumas dezenas de vezes. Acredito que seja um processo natural, acompanhando as fases da vida - Sidney quando estava casado, Cingapura quando quis ligar o foda-se e sumir, Buenos Aires quando não queria ir pra longe, qualque cidade dos Estados Unidos durante os primeiros anos da adolescência. Mas uma cidade nunca saiu da minha cabeça, e fixou raízes ainda mais depois de visitá-la: Londres.

Muitos não se apegam a Londres, detestam com veemência seu clima, a educação peculiar das pessoas, o ritmo da cidade ou qualquer outro fator que torne a cidade única. Eu não consigo enxergar por esse ângulo - acho a cidade civilizada, bonita, e o estilo de vida londrino me cativa - talvez por ser uma pessoa extremamente urbana, talvez por gostar de andar sem rumo por aí, sem que ninguém te olhe torto, fazendo julgamentos à primeira vista ou se importando mais com a sua vida do que a própria. Londres pra mim é uma cidade solitária, anônima - e paradoxidalmente acolhedora, sociável.

Nos meus milhares de planos mutáveis, penso em sempre passar por Londres durantes minhas férias, apenas para não apagar da memória aquela caminhada pelas margens do Tâmisa, uma parada para bate-papo na Trafalgar Square, uma noite de risadas ricocheteando entre os pubs de Angels. Ainda penso em me mudar para Londres, talvez para morar alguns anos, talvez para ficar alguns meses. Mas nunca sei a hora de dizer "aí vou eu, pedras e risos".